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Jornal de Domingo

Lurdesvoni, mais uma cruz na estrada!

25/06/2011 - Enviado por Edson Moraes

As cruzes vão se multiplicando ao longo da estrada do tempo neste grande cemitério indígena chamado Mato Grosso do Sul. Cruzes encharcadas de sangue e de lágrimas, de dores atemporais que se derramam por nossa violentada ancestralidade. São cruzes fincadas num chão despatriado, improvisadas na geometria disforme que agressões certeiras e covardes desenham.

Na proporção das causas, as cruzes de morte morrida vão sendo engolidas pelas de morte matada e induzida nas aldeias – ou no que resta delas – e nos confinamentos urbanos. São cruzes de uma sangrenta demanda industrial que, como produção em linha, sinalizam que sob a terra de todos e de ninguém há corpos, sonhos, possibilidades apagadas e desditas de bebês golpeados pela desnutrição, de adolescentes despossuídos da esperança, de homens e mulheres de todas as idades expostos às balas de aluguel e ao efeito letal do consumismo envolvente.

Índios morrem por desnutrição, índios se matam por depressão, índios sem saída se deixam contaminar e adoecer pelo álcool, pela droga, pela descaracterização cultural. Índios são assassinados. E viram personagens de ocorrências absurdamente cotidianas, tratadas por inaceitável paradigma de normalidade. É absurdo, mas real, tamanhas as doses de desfaçatez e de cinismo das autoridades na falta de respostas precisas contra os assassinatos de encomenda perpetrados na arena onde os donos da terra estão acuados.

E as cruzes se amontoam nesta estrada aberta pela impunidade.

Marçal de Souza Guarany, Tupã-Y, morto a tiros em 25 de novembro de 1983.

Julite Lopes, kaiowá, assassinada a tiros em janeiro de 2007.

Ortiz Lopes, guarany-kaiowá, executado a tiros em 08 de julho de 2007.

Osvaldo Lopes, guarany-kaiowá, assassinado a tiros em maio de 2009.

Marcos Verón, guarany-kaiowá, assassinado a tiros em 13 de janeiro de 2003.

Givaldo Vera e Rolindo Vera, guarany-kaiowá, sequestrados e desaparecidos em novembro de 2009. Só o corpo de Givaldo foi encontrado, dias depois, com marcas de violência.

No ano passado, 34 índios foram assassinados em Mato Grosso do Sul – 56% do total de casos registrados no País, segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

No dia 23 passado, morreu na Santa Casa de Campo Grande a índia terena Lurdesvoni Pires. Tinha 28 anos, era separada do marido e deixou quatro filhas. Havia sido internada no dia 4 de junho, depois que, na noite anterior, o ônibus que transportava estudantes e moradores da Aldeia Cachoeirinha, em Miranda, foi atacado e incendiado com coquetéis molotov por agressores ainda não identificados. Lurdesvoni estava entre os quatro passageiros que sofreram os mais graves ferimentos e queimaduras. A área em que vivia é palco de disputas entre fazendeiros e o povo terena.

Em 2011, nossos índios continuam sendo executados, humilhados e brutalmente estigmatizados, enquanto a grande imprensa burguesa insiste em tratar essa conjuntura com registros que não excedem os limites clássicos da formalidade editorial.

Infelizmente, há mais cruzes disponíveis e carpinteiros impunes de plantão á espera da próxima vítima. Vergonha é pouco!

Jornalista - www.edsonmoraes.jor.br

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