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Jornal de Domingo

O amor de mãe sempre nos alcança

11 de maio de 2012 - 21h59

Amanda  era uma garota de expressão triste. Procurava estudar muito. Na hora do recreio ficava afastada dos colegas, como se estivesse  pensando no infinito, conversando com anjos. Mas ela tinha uma particularidade : Todas as outras meninas zombavam dela, por causa das suas meias em tom laranja – iguais aos  da Defesa Civil .

Um dia, alguém incomodado com aquela mesmice  lhe perguntou porque ela só usava meias daquela cor. Com a singeleza de seu coração expressa nas palavras balbuciou: "Há quatro anos atrás, quando fiz aniversário,minha mãe me levou ao circo; lá aonde hoje existe  um grande hipermercado e colocou em mim essas meias laranjas. Eu ponderei e até argumentei que pessoas iriam rir de mim justamente porque eu usaria aquelas meias.Entretanto ela com aquele olhar de ternura disse que tinha um motivo muito forte para me colocar as tais  meias. Disse que se eu me perdesse, bastaria ela olhar  e quando visse uma menina de meias "tangerinadas"...claro lá estaria minha Amandinha !."

"Ora", disse a colega retrucando. "mas você não está num circo. Por que não tira essas meias esdrúxulas e as joga fora? Você está totalmente fora de moda!"

Amanda  olhou para os próprios pés, talvez para disfarçar o olhar lacrimoso e explicou: "-É que a minha mãe abandonou a nossa casa e foi embora.Fiquei apenas com meu pai e por contingências da vida me presenteou com uma MÁdrasta. 
 
Por isso eu continuo usando essas meias . Assim que ela passar por mim, em qualquer lugar em que eu esteja, nesse mundão de meu Deus; ela vai me encontrar e me levará com ela."

Assim sendo, caríssimo leitor; há de convir que muitas pessoas  existem, nesta cidade que estão solitárias e tristes, chorando um amor que se foi ou as oportunidades perdidas. Colocam as tais  meias laranjas  na expectativa de que alguém as identifique, em meio a multidão, e as leve para a intimidade do próprio coração e de sua imanente existência, para fazer parte de sua essência humana.

São crianças, cujos pais as deixaram, um dia, em braços alheios, e têm sede de carinho e fome de afeto.São idosos recolhidos a lares e asilos, às dezenas. Ficam sentados em suas cadeiras, tomando sol, as pernas estendidas, aguardando que alguém identifique as suas já desbotadas meias alaranjadas.

Aguardam gestos de carinho, atenções pequenas. Marcam no calendário, a data da próxima visita, do aniversário, da festividade, do reencontro especial. Aguardam...esperam...imaginam...sonham...anseiam.
São mulheres que  se levantam todos os dias, saem de casa, andam pelas ruas, sempre a espera de alguém que partiu; retorne. Andam atrás de emprego, de notícias e muitas vezes de um lar. São mulheres que esperam que o filho que tomou o rumo do mundo e enveredou pelo caminho das drogas, da delinqüência e da intolerância volte para o seio de sua família e retome os trilhos da prosperidade.

Por isso nesse dia das mães se por acaso você perceber alguém que  estiver usando meias laranjas, por gentileza : pensemos se não é esse o momento de reconstruir a esperança e a fé . E como Gonzaguinha disse: hoje é a semente do amanhã... Fé na vida, fé no homem... fé no que virá, nós podemos muito; nós podemos mais!    

*Membro da equipe de articulistas do Jornal de Domingo   e autor do livro Estórias e Histórias que a vida nos faz contar

Um Jogo de Xadrez

27 de abril de 2012 - 22h57

13 de maio de 1988...começa o jogo. É um jogo de xadrez. Mas que por mão mágica é movida. No entanto:os brancos saem na frente …

Invejo a lucidez desse jogo porque mesmo não tendo toda a decisão tenho a capacidade de influenciá-lo. E depois mais cedo ou mais tarde tenho de aprender a respeitar a ordem natural das coisas e mudar as peças para que joguem ao meu favor.

Mas acredito que na vida, apesar de tudo, a verdade e a justiça sempre acabam por triunfar e sem pestanejar prossigo o ato, o jogo continua...as peças pretas saem loucos para atingir a última linha. sabe-se apenas que se regras forem violadas há o risco do peão não chegar  Chega a hora de reunir o necessário e esquecer o acessório conduzindo o destino de cada peça. Começo a perceber uma regra de continuidade e de respostas em cada jogada. É o nosso cotidiano.

Aprender a mover as peças é entender que dois exércitos se enfrentam. São peças pretas contra as peças brancas e peças brancas contra peças pretas e cada jogador tem 16 delas. Essa é a nossa única diferença:não sabemos quanto tempo temos,quantos dias teremos e não sabemos se obteremos chance de consertar o mal que fizemos ou identificar qual foi a nossa “jogada errada” . Mas o objetivo é o mesmo : fazer com que ao final o rei adversário fique sem saída e abdique...é o xeque-mate.

Na vida real cada decisão nossa é um xeque-mate. Mas algumas regras são importantes saber ! Por exemplo:uma pedra preta será sempre uma pedra preta mas isso não interfere no jogo pois não são somente as brancas que ganham.

Um outro exemplo é o movimento do cavalo: muitas vezes devemos desviar de algo para atingir nosso objetivo e depois um terceiro exemplo: um peão que vira dama mesmo com toda a movimentação diferenciada pode “morrer” nas mãos de uma outra peça, mesmo que seja um imoderado e simples peão.

É assim é a nossa vida, tal qual um jogo de xadrez, nossas idas e vindas, nossos problemas atribuladores a enfrentar. O jogo não acaba sem angústia e sem perdas para ambos os lados. Cada ato nosso é mais uma jogada, a favor claro do brilhantismo do jogo; a favor do realce de matizes da vida, limites traçados para o amor em preto e branco. 13 de maio de 2012; fim do jogo? Talvez? Entretanto um grande fato nunca devemos esquecer ... o movimento de uma pedra interfere no movimento das outras. E sem dúvida nenhuma o mais importante é o "Gran Finale" da partida e que particularmente me encanta: pedras brancas e pedras pretas;a toda poderosa rainha, a esnobe torre,o filantropo Bispo ou o humilde peão, sem outra alternativa, voltam para a mesma caixinha!

*Articulista e autor do livro Histórias e Estórias que a vida nos faz contar, também traduzido para a língua Terena.

Kampibe ajamu

13 de abril de 2012 - 20h03

É cediço que famílias em situação de exclusão social e grupos sociais “minoritários” devem ser vistos não só como os constituintes das populações atendidas pelos programas desenvolvidos nesse contexto, mas também o conjunto das organizações  envolvidas. Citarei  a  comunidade quilombola de São Miguel, no município de Maracaju, que é a primeira comunidade de Mato Grosso do Sul a receber, em definitivo, o título de propriedade da terra onde vive. A comunidade vive em uma área total de 420 hectares e abriga 16 famílias com 80 pessoas. Para se ter uma ideia do tempo de espera,para este fim - A comunidade de São Miguel foi certificada pela FCP – Fundação Cultural Palmares - em 2005. O processo de regularização fundiária avançou com a edição do Decreto de Desapropriação em 20/11/09, que declarou o território quilombola como área de interesse social. Há a necessidade de discutir sobre a implementação da lei 11.645/2008 e a lei 10.639, de 9/01/03, - que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”para que estes temas estejam sempre presente nos nossos objetivos futuros.

Somente através da Constituição Federal de 1988, a questão quilombola entrou na agenda das políticas públicas. Artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) diz: “Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida à propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os respectivos títulos.

Em Corumbá, Foi aprovada, em uma sessão de março de 2012 da Câmara Municipal o projeto de lei que declara de utilidade pública a Associação Quilombola Ribeirinha Família Ozório,ou seja...há apenas 30 dias. Só para lembrar a comunidade, localizada na alameda Vulcano, no Centro de Corumbá, é formada por 400 pessoas, que são descendentes de quilombolas, por isso possuem o título de “Remanescentes de Quilombo”.

Somente com esta certificação existe a garantia e a  possibilidade de inclusão em políticas sociais de vários Ministérios, através do Governo Federal, como educação, saúde, cultura. Na educação, por exemplo, garante merenda escolar diferenciada para crianças dessa comunidade, capacitação de professores e até construção de escolas. Na Saúde, permite a implantação de Centro de Saúde da Família, de acordo com as necessidades da comunidade. A Funasa pode fazer ações de saneamento básico na região e pelo lado da Cultura podem ser instalados pelo Ministério os pontos que podem proporcionar acesso à inclusão digital. E antes quantas dificuldades já passaram.

Cabe a nós que abraçamos esta causa e estamos empunhando esta bandeira elevá-la ao ponto mais alto e dizer a que viemos. No próximo 13 de maio, teremos mais uma oportunidade de discutir e realizar uma breve revisão da história, buscando um dia de ação e de luta contra a discriminação racial  e agora é a hora. O país depende de nossa força de trabalho e de nossa vontade de servir ao próximo.É esse o exemplo de luta que é o legado da comunidade negra no Brasil.Por derradeiro desejo que essa luta não esmoreça ou ”Kampibe Ajamu” – que na língua (Iorubá), do continente africano Malauai, quer dizer: Vá e Veja!  lute pelo o que  quer.

Quando tisnardes vosso paladino !

05 de abril de 2012 - 15h24

Wladimir Garcês, ex-deputado estadual e aliado do chefe da quadrilha, dá ordens usando o telefone de Cachoeira: "Tem (...) hoje uns foguetes aí que tem que pagar, que é da colação de grau da esposa do Demóstenes, tá? Aí eu vou te passar o número de uma conta, você faz direto o depósito aqui pra gente, tá?
Esse é um dos trechos das conversas que o Brasil  recentemente conheceu seu teor. Que há a necessidade de se presentear alguém que chegou a o patamar de uma colação de grau ?  - respondo sim, evidentemente, principalmente quando acontece num país como o nosso tão carente de educação. Mas a origem do presente e a forma que ele chega a suas mãos também é algo a pensar. A frase acima se confirmada sua procedência  representaria  uma pequena mostra da imoralidade no alto escalão da sociedade que já penetrou  nos poderes da República, apontando para  uma trilha   aonde homens públicos desmoralizam a si e a  sua família. É lamentável e devemos nos preocupar que a medida que avançem outras investigações não deverá sobrar  a cota mínima de políticos que tenham procedimentos dignos de orgulharmos dele. Ressalto ainda que o primeiro suplente do senador Demóstenes Torres (DEM-GO), o empresário Wilder Pedro de Morais, também teve contatos frequentes com o  Carlinhos Cachoeira, a exemplo do titular do mandato no Senado. Por conseguinte, se o Senador Demóstenes se licenciar ou renunciar ao cargo, Wilder é o primeiro substituto natural do posto.
Foi o próprio Demóstenes que expôs esse aspecto da vida pessoal de seu suplente, em recente entrevista em que tentava explicar o motivo das 298 conversas telefônicas que teve com Cachoeira entre  fevereiro e agosto de 2011, como mostram as degravações  para a Operação Monte Carlo. “A mulher do meu suplente o deixou e passou a viver com Cachoeira. Eu e minha mulher tivemos de resolver esse problema. Por isso houve tantas ligações e encontros”  Demóstenes Torres, ex-líder do DEM no Senado, atuou como procurador de justiça. Foi professor concursado em escola pública, revisor de jornal e advogado. Passou em concursos públicos de Delegado de Polícia e Promotor de Justiça. Optou pelo Ministério Público. Em 2009, Demóstenes recebeu de "Cachoeira" um aparelho Nextel, habilitado nos Estados Unidos, e utilizava-o para conversar com o amigo, sem medo de grampos.
Comenta sobre o caso as seguintes frases retratadas em seu twitter –“O sofrimento provocado pelos seguidos ataques a minha honra é difícil de suportar, mas me amparo em Deus e na certeza de minha inocência. Dói enfrentar o olhar sofrido de familiares torcendo para o tormento passar logo. Mas as inverdades chegam açodadas; a reparação, lentamente”. Apresento os dois lados até porque as investigações ainda precisam revelar mais detalhes e o veredicto final não foi apontado.Somente devemos apontar a culpa depois de se colocar a ampla defesa e o princípio do contraditório. Até porque em seu legado ficará uma matéria que  tenho acompanhado e lutado muito  que versa sobre a internação compulsória do usuário de drogas. Notadamente do crack; a devastadora mistura de cocaína com bicarbonato de sódio ou amônia; que demora até 10 segundos para, ainda quente, atingir o pulmão. A preocupação é ainda maior posto que, atualmente com a dificuldade de locais de internação e leitos disponibilizados pelo SUS fica condicionado a vontade do usuário em se tratar,ou seja se ele quiser se tratar, arruma-se uma clínica; se recusar o tratamento, nada se pode fazer além de assistir a autodestruição. O Senador Demóstenes lutava pelo que  popularmente denominamos “internação compulsória”, que  resgata a possibilidade de encaminhamento coercitivo para o usuário de drogas. Como está agora, até certo ponto, a despenalização foi uma experiência inovadora porém serviu  para potencializar o sofrimento dos próprios viciados e seus familiares. Querer que um viciado em crack se levante da calçada e  caminhe a passos largos no rumo da clínica de recuperação é utopia. Mormente e  precípuamente devemos aprender que corrupção é corrupção e não pode ser obnubilada nem tampouco  incentivada. É fundamental para que tenhamos uma política mais ética e um país livre dos grilhões que hoje nos mantém presos ao  clientelismo e a miséria, sendo mister  uma mudança de atitude sobre nossas vidas e o que fazer de agora em diante.

A inquietante sensação do medo

28 de março de 2012 - 17h42

O fenômeno social mais preocupante em 2012, é a escalada do uso e abuso de drogas, em razão da multidimensionalidade que apresenta, pois reflete desde os  acidentes de trânsito até a inquietação,medo  e tristeza no seio familiar. A droga é hoje um impeditivo à paz social, pois gera intranquilidade no seio da célula mater da sociedade, na Saúde e na Segurança Pública. É inequívoca a relação entre o trinômio usuário/traficante/criminalidade e o seu peso na movimentação da máquina da violência.

O uso indevido de drogas consubstancia-se  em,  séria e persistente ameaça à humanidade e à estabilidade das estruturas e valores políticos, econômicos, sociais e culturais e da vida propriamente dita.  Inobstante todos os esforços já realizados pelo Estado na busca de solução para a questão das drogas, observa-se uma enorme frustração quando se examina o balanço das políticas de enfrentamento implementadas. O consumo de drogas aumentou e são minguados os resultados das ações de prevenção ao uso, de reeducação e de recuperação de usuários.

É certo que muitos países são fortemente dependentes da economia das drogas, como é o caso, por exemplo, de Myanmar (antiga Birmânia), apontado pela ONU como o segundo maior produtor de ópio do mundo (460 toneladas), e de Marrocos, maior produtor mundial de haxixe. Por conseguinte percebe-se uma grave dificuldade adicional que os governos enfrentam para combater o narcotráfico até porque,  ele anda amiúde com o tráfico de armas.

É inegável que qualquer política de combate às drogas deverá contribuir para a responsabilização dos indivíduos a que se destina, buscando a sua conscientização e a mudança de seus comportamentos e atitudes. Estamos em guerra contra as drogas e não há mais espaço para retórica. Esta é a questão que está em pauta na agenda da saúde pública no país. Mato Grosso do Sul tem apenas 83 leitos para tratamento de usuários de drogas por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). Infelizmente, pacientes amargam à espera de vagas nos dois hospitais que comportam internações acima de um mês – Nosso Lar, em Campo Grande, e Hospital Psiquiátrico de Paranaíba. Familiares continuam assustados sem saber o que fazer e eivados da inquietante sensação do medo.

A associação das drogas à criminalidade e o slogan “guerra as drogas” passam a fazer parte de todo um aparelho ideológico presentes em estratégias do Estado, da Justiça, de religiões contra um “grande mal”. Destarte precisamos fazer  “entrar em cena” os atores, perturbar a lógica. Pais (sempre) em atividades junto a seus filhos, comungando com a orientação de professores, jornalistas,policiais e enfim todas as autoridades constituídas para buscar um caminho e se houver a necessidade : a internação . Reconhecida pelo decreto lei 891 de 25/11/1938  em seu Art 29 que trata do toxicômano ou intoxicado habitual por entorpecentes ou inebriantes em geral com vistas a sua internação obrigatória – por tempo determinado ou não. É o momento de a sociedade  somar esforços e contribuir para que se crie uma política de Estado de enfrentamento às drogas. Não se trata de uma disputa político-partidária mas a reeducação do amor “responsável”. O vício troca as dores humanas por falsos e efêmeros prazeres, enquanto escraviza a alma e quase sempre definha o corpo.

Sobre o Colunista

Rosildo Barcellos

Gabarito

Professor, articulista e Consultor educacional.
Contato: barcellos.sitecar@gmail.com

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