Circulando desde Fevereiro de 1992,  Edição Nº: 762
Campo Grande - MS,08 de Julho de 2008  
Novos projetos precisam ser discutidos

Caro leitor. A cidade de Campo Grande está sem discutir inúmeros projetos de interesse público que estão sendo lançados pela administração municipal e até da iniciativa privada. Sem o combativo CMDU – Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano entrar na discussão ou tomar conhecimento da discussão de diversos projetos, vai ficando cada dia mais difícil suportar a falta de debate de propostas. Senão vejamos. Depois de rápida passagem pela Câmara de Vereadores para apreciação, em 2005 e 2006, o Plano Diretor e a Lei de Uso e Ocupação do Solo Urbano, duas das mais importantes leis urbanísticas de qualquer cidade, criadas com a promessa de combater os vazios urbanos de Campo Grande, quase dois anos depois, não estamos assistindo nenhuma ação do governo, que anda excessivamente preocupado, como sempre, com obras de pavimentação asfáltica. Aliás, alguns meses depois de aprovada, a Lei de Uso do Solo foi alterada para beneficiar o surgimento de um empreendimento privado no quarteirão central da cidade, ao lado das Lojas Americanas, nesse momento em obras. Benefícios públicos de uma lei para ajudar a iniciativa privada: e eu que achava que isso tivesse acabado há 20 anos atrás quando conseguimos aprovar na Câmara de Vereadores a antiga lei municipal 2.567/88 que organizava o solo urbano de Campo Grande e somente aprovava processos quando o CMDU se manifestava. Esse dispositivo foi retirado do novo Plano Diretor. Havia mais democracia na lei anterior e não houve debate nesse processo nem na alteração da lei. Outro ponto refere-se à Rodoviária de Campo Grande: não se discutiu a que estava em obras, paralisada há anos que um juiz determinou que a obra continuasse; durante todos os últimos 8 anos alegou-se serem muito altos os investimentos para que ela fosse concluída, às custas de exigências exageradas e descabidas da administração municipal anterior.Pois bem, o Poder Judiciário, que foi indomável durante anos na questão da rodoviária, volta atrás e permite que se faça uma "quinta" rodoviária para Campo Grande, na saída de São Paulo, lugar escolhido mediante quais estudos de viabilidade que demoram, em média, 12 a 15 meses para serem elaborados? Vem a pergunta: quem participou do debate para a escolha do novo local? Juiz e médico conhecem planejamento urbano? E os técnicos da municipalidade? E o PLANURB/ E o CMDU? E os arquitetos e suas entidades, o IAB e o SINDICATO? E o CREA? E você foi chamado para discutir? Bem, no local da rodoviária com as obras paralisadas, no bairro Cabreúva, o Prefeito Nelson Trad Filho apresentou à comunidade cultural, dias atrás, uma proposta de transformar o projeto da rodoviária do arquiteto Rubens Gil de Camillo num Espaço Cultural. Pois bem, o Zeca do PT tentou fazer isso e o Poder Judiciário não permitiu. Porque proibiu para um e permite para outro? E porque os fóruns não são chamados para a discussão? O Conselho Regional do Centro, o CMDU, as entidades culturais somente tomam conhecimento da proposta pronta? Continua faltando discussão.
Agora e por fim, mas não finalmente, a Concha Acústica na Praça do Rádio. Você sabia que será construída uma Concha em concreto armado, no centro da nossa bela praça, para realização de shows de vez em quando enquanto a cidade não tem um Teatro Municipal, uma Biblioteca Municipal, espaços para a cultura nos bairros, dentre outras necessidades. Quem decidiu que a Praça do Rádio deve ter uma Concha Acústica permanente? Um objeto de concreto que vai desarmonizar a paisagem da praça. Sem discussão, a obra foi lançada, a comunidade fica olhando e nada faz. Esses e outros pontos, que acabamos de mencionar, se juntam a outros do passado, como a retirada dos trilhos, demolições de casas e prédios, abertura da Av. Mato Grosso, sem a mínima discussão com a comunidade. Se vivêssemos numa ditadura, como nos anos 60 e 70, ainda havia falsos argumentos mas se tinham alguns. E hoje, em plena democracia, com a cidade tendo mais de 1500 arquitetos e 5000 engenheiros, um monte de entidades, conselhos, fóruns de debates, ONG’s, etc, sem discussão de propostas importantes para a cidade, não cabe mais. O planejamento participativo, que tanto lutamos no passado para que ele existisse, não permite mais essas obras, às vezes algumas loucuras em nome do desenvolvimento, como se fez no passado. Caro leitor, escrevo esse artigo um pouco indignado, pois como arquiteto e urbanista e professor universitário, não vejo mais debates sobre muita coisa na minha cidade, que adotei para morar e viver. Prezo que as coisas sejam, democraticamente, decididas, como fiz com minha equipe do PLANURB, nos anos de 1987, na administração do saudoso prefeito Juvêncio César da Fonseca, que nunca permitiu que nada da Prefeitura fosse colocado em prática sem discussão com a comunidade interessada. Juvêncio: tenho dito a amigos da saudade que ando tendo de suas administrações democráticas e exemplares e que definiu que o planejamento fosse a ferramenta mais importante para Campo Grande. Precisamos debater mais os problemas e as idéias para a nossa cidade. Somente assim seremos modernos e felizes. Como sempre fomos.
(*)Ângelo Marcos Vieira de Arruda - Arquiteto e Urbanista



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